A manta térmica de Carlos Vici
Produto que está sendo aperfeiçoado na Unopar utiliza resíduos que não têm viabilidade econômica para reciclagem
Ter convivido com a gente simples que na década de 70 habitava os últimos quarteirões da Rua Maranhão certamente contribuiu para que, trinta anos depois, o físico Carlos Henrique Gorges Vici desenvolvesse uma manta térmica de baixíssimo custo capaz de melhorar substancialmente o conforto térmico de residências. Hoje, seu “invento” beneficia centenas, talvez milhares de famílias em todo o País.
Carlos dava aulas no ensino médio quando notou que o revestimento interno da caixa tetrapak contém alumínio, mesmo material que pretendia usar na reforma do seu apartamento. “Naquela hora, pensei: por que não usar aquilo, que era muito mais barato do que a manta que se compra por aí?”, conta o físico, que passou a fazer testes com seus alunos no Colégio do Sesi, com apoio do Rotary.
O resultado, obtido em 2007, foi uma manta térmica de excelente desempenho produzido a partir da união de várias caixinhas de leite – vinte delas se transformam em um metro quadrado de manta. As primeiras mantas, produzidas por detentos do Centro de Detenção e Ressocialização (CDR), foram instaladas em meia dúzia de barracos da favela Bratac, na zona oeste de Londrina.
´Medições realizadas em casas vizinhas – ou seja, com o mesmo nível de insolação – mostram que o ambiente dotado de manta térmica fica com até 15 graus a menos no caso de telhado com telhas de barro e até 20 graus em caso de telhado com amianto. Sempre com a parte do alumínio para baixo e a parte do papelão para cima, a manta reveste o telhado ou o forro das casas com a ajuda de grampeadores industriais.
O projeto venceu o prêmio Escola Voluntária, promovido pela Rádio Bandeirantes com patrocínio do Banco Itaú. O viés ambiental do projeto é evidente. “A embalagem tetrapak da caixinha de leite não tem viabilidade econômica para reciclagem”, afirma Carlos Henrique Vici. “Fica mais caro do que produzir uma nova embalagem.”
Da mesma forma com que mantém a temperatura interna de uma casa mais agradável nos dias quentes, ao barrar o calor que vem de fora, a manta manifesta performance também nos dias frios, ao evitar que o calor interno – produzido pelo corpo das pessoas – saia. “De qualquer forma, você tem um ambiente mais agradável”, diz Carlos Henrique, que promove oficinas de aprendizagem em comunidades carentes – além de Londrina, a técnica de produção da manta já foi levada a Cornélio Procópio, Apucarana, Arapongas, Curitiba, Ji-Paraná (RO) e até em Xerém, reduto do sambista Zeca Pagodinho no Rio.
Atualmente, a manta térmica ambientalmente correta está sendo aperfeiçoada nos laboratórios do curso de Engenharia Elétrica da Unopar, para que seja instalada, em 2012, em bairros da zona leste como o Monte Cristo e o Morro do Carrapato, em projeto de extensão universitária. Vem aí a terceira geração da manta térmica, não mais agrupada com cola ou fita, mas costurada, o que, segundo Carlos Vici, trará uma vantagem adicional: mais durabilidade. Deverá custar menos de R$ 1,00 o metro quadrado, contra mais de R$ 6,00 do produto convencional.