A divina galera de Marcelo Casanova
Bem empregado, ele decidiu largar tudo para, com o auxílio luxuoso da esposa, dedicar-se ao próximo
Marcelo Casanova, londrinense, 44 anos, concorre ao Prêmio Betinho - Atitude Cidadã, criado pela Rede Nacional de Mobilização Social para valorizar as pessoas que, em seu dia a dia, trabalham pela promoção da cidadania. E ele não tem feito outra coisa desde setembro de 2007, quando, de Fortaleza, passou a trocar e-mails com uma psicóloga que, de licença-prêmio, foi aperfeiçoar o inglês no Canadá. Maria Luiza Marinho mandara um primeiro e-mail a Marcelo a pedido da amiga, que queria o irmão de volta a Londrina. Passaram a se entender de tal forma que, semanas depois, por telefone, ele tascou:
– Quer casar comigo?
Eles só tinham, então, visto foto um do outro. Mas acreditavam já se conhecer o suficiente. A troca de correspondência eletrônica revelou um casal que comungava de ideias semelhantes sobre crença em Deus e, sobretudo, em ajudar o próximo – sem que fosse necessário absolutamente nada em troca. “Desde pequeno tenho uma relação muito legal com Cristo. Aos 13, 14 anos, cheguei a pensar em ser padre. Sempre tive um certo encantamento por valores que aprendi em família, como honestidade, verdade, respeito”, conta Marcelo.
O resultado é que ele fechou o apartamento na capital cearense, acertou as contas com uma grande indústria têxtil – na qual trabalhou 16 anos, morando em cinco capitais – e, de mala e cuia, pegou um avião para Campinas e, depois, um ônibus para Londrina, na noite do feriado de 12 de outubro. Desembarcou às seis da manhã. Maria Luiza o esperava na rodoviária. Foram ao Pátio San Miguel tomar um café. Saíram de lá ao meio-dia. Nunca mais se desgrudaram.
Principalmente quando Marcelo passou por uma cirurgia na vesícula e, com complicações, foi internado. Ficaram noivos na UTI, no dia do aniversário dele, em dezembro. Em março de 2008, casaram. Marcelo anunciou: “Quero uma vida nova. Não vou mais ter emprego. Quero fazer algo pelo próximo”. Malu, de início, ficou assustada. Mas deu corda à loucura do marido. “Sou de origem humilde, nunca tive ambição de ganhar muito dinheiro. Já tinha um bom emprego, estável, um bom salário. Ajudar outras pessoas era de fato um desafio muito interessante.”
Foram à luta. Marcelo passou um ano e meio comprando sobras baratas de verduras e legumes para abastecer famílias carentes nos jardins Marabá, Monte Cristo e Santa Fé, além do Morro do Carrapato, todos na zona leste. Obstinado, ganhou respeito – e as verduras – de donos de supermercados. Até que deparou com um imóvel abandonado na Vila da Fraternidade. Um empresário amigo bancou um ano de aluguel. Ali montou a Galera de Deus Escola de Valores – que, conforme ele mesmo diz, “não é uma ONG, não é uma entidade, não é nada”, é um local onde ele e Malu, auxiliados por vários voluntários da UEL, alfabetizam, alimentam e divertem dezenas de crianças que vivem em situação de risco.
Às terças e sextas, alfabetização e contação de histórias. Aos sábados e domingos, oficinas: música, costura, esporte, texto. Não recebem verbas oficiais. A cozinheira é paga por alguém. A comida é doada por outro. Alguém paga água e luz. Sempre amparado em relação de confiança e admiração, Marcelo e Malu vão obtendo ajuda aqui e ali, para terem, como única recompensa, o crescimento visível das crianças, em termos de alfabetização e comportamento. E a constatação de que, sem esse trabalho, aquelas crianças não teriam a menor chance.